"PREPARE SEU CORAÇÃO PRAS COISAS QUE EU VOU CONTAR..."
Autor: Geraldo Vandré
"PREPARE SEU CORAÇÃO PRAS COISAS QUE EU VOU CONTAR..."
Autor: Geraldo Vandré
Foi ali
Às margens de um velho e sedimentado Monge,
Á sua correnteza defronte,
Encostado ao tronco torto de uma pequena árvore,
Entre a trilha e o barranco do rio,
Que um sentimento forjou seu ciclo
De atração,
Vida
E paixão.
De amor até a morte.
A mercê da sorte
E sem pensar nos riscos,
Só o afeto
Sincero e fatal
De fato contava.
Ânsia de prazer subornado a razão,
Ignorando a prudência dizendo: não!
São testemunhas os pássaros,
O ar,
A água e o barro;
As piabas,
Lagartixas, morcegos e os sapos;
Mariposas,
Camaleões,
A brisa e o mato.
E, até lá de cima, os aviões.
E mais adiante, do asfalto, o carro.
Viram tudo
E até hoje devem lembrar.
Alguns momentos mais breves,
Outros mais intensos.
Uns à sombra,
Outros ao luar.
Em efêmeras, mas emocionantes horas,
Libidinosos pensamentos
Eram contidos no limite do ato.
A tesão superava o medo,
O que nos motivava era o desejo
E o que nos dominava era a fome de amar.
E quantos beijos,
E quantas carícias
Aquele bosque contemplou
E que aos expectadores impressionava.
Contudo,
Quietos
Mudos
Ou perplexos,
Frente àquela modalidade de sexo
Que a pureza da virgem caprichosamente zelava.
Amor que entre os deuses provocou debate
E às convenções sociais desafiou.
Na minha mente,
Porém,
Para sempre ficará velada
Sensação de prazer
Por que não dizer: mágica
Por assim dizer: prazerosa
É sentir o toque em sua pele linda,
Pele clara, limpa e cheirosa.
Suave como o veludo
Macia como as pétalas da rosa.
Delicada
Levemente corada
Exalando paixão
Textura da seda
Ou da fibra leve do algodão
Essência de formosura
Pura, gostosa, embriagadora
Qualidade da pluma
Fragrância da espuma sedutora
Sensível, bela
Derme, epiderme
Tudo perfeito nela
Nela como em nenhuma
Gotas d’água viram néctar
Sobre sua cútis de flanela.
"Sozinho no escuro
Qual bicho do mato
Sem teogonia
Sem parede nua
Pra se encostar..."
Carlos Drumond
A ganância gera a desigualdade
A desigualdade gera a pobreza
A pobreza gera o desespero
O desespero gera a revolta
A revolta gera o ódio
O ódio gera o conflito
O conflito gera a guerra
A guera gera a morte...
Mas a guerra também é promovida pelos gananciosos
Então, o ciclo continua.
Cheguei à parada
E fiquei encostado
Na mureta quebrada...
Primeiro de pé,
Depois sentado,
De qualquer forma esperando
O coletivo lotado,
Meia-hora atrasado,
Mas que já vinha chegando.
O motorista irritado,
A marcha só emperrando...
Um cobrador aloprado,
Um rapazinho “viado”,
E um soldado mangando.
A mulher gorda empurrando...
Tinha um sovaco vencido,
Minha cabeça doendo,
O carro todo fudido
E um canalha peidando.
O saco da velha rasgado,
O frango gelado pingando,
Um baixinho sofrendo,
Tudo balançando,
E um sujeito tarado,
Na boazuda encostado
E um tal menino chorando.
Meu tronco empenado,
A estudante sorrindo,
A doida só reclamando...
Um calor arretado,
A lataria batendo,
O motor fumaçando,
A mulher gorda voltando,
Meu corpo todo pendendo
E o menino mamando.
A sirene apitando,
Algumas pessoas descendo,
Outras pessoas sentando,
Um mal-cheiro danado,
Eu já ficando enjoado
E o menino golfando.
Meu destino chegando!
O busu-velho freando,
O pé-redondo tombando,
O menino dormindo
E eu finalmente... “vazando”.
Ô viagem infeliz. Puta merda!!
"Perspectivas são um luxo quando se tem um enxame de demônios zumbindo constantemente na cabeça"
Autor: Amir (personagem do livro "O caçador de pipas")
Linda criança adolescente,
Adolescente menina.
Moldura teu rosto claro,
Os caracóis dos teus cabelos fartos,
Mesmo que manipulados
Combinam com tua pele fina.
Leve,
Esbelta:
Minha obra-prima.
Lábios carnudos e olhos que se destacam.
Vivo pra tua vida,
Tua vida justifica a minha.
Pequeno coração,
Grande em ternura.
Singela meiguice,
Inocente preguicinha.
Sorriso que me fascina e encanta.
Canta,
Dança,
Manifesta assim tua alegria.
Em teu sereno sono,
Sonhas princesinha.
"Será que tudo que eu gosto é ilegal, imoral ou engorda?"
Autor: Roberto e Erasmo Carlos
"Se acredito na vida após a morte? Não sei nem se acredito na vida antes da morte! Acho que acredito na morte durante a vida."
Autor: Groucho Marx
Uma criança nasce:
Belo e branco menino.
Tão logo revela um carisma inato,
Adorado bebezinho,
Fruto de um desejo imediato.
Alguns viram nele um “galeguinho”,
Más a cara do pai,
Se não por seus olhos claros,
Não deixa dúvidas sobre o fato:
É meu filho, Dioguinho.
Ainda pequeno
Por germes covardes é acometido.
Cai enfermo frágil garotinho,
Para aflição e angústia da gente.
Entre a vigília,
A dor e maciças doses de amor,
Sofreu,
Menininho,
Sob frias compressas e penosos tratamentos,
Que tentavam conter o calor de sua pele quente,
Numa luta de anos
Entre o mal o os medicamentos.
Vigiado pelos anjos do Céu,
Acudido pelos “santos” da terra:
Santa Mãe Dien,
Santa Mãe dele,
Santa Mãe Dudu,
Santo eu também.
Por fim cresceu,
Por fim à doença venceu.
Para nós, Glória!, “amanheceu”.
Hoje,
Adolescente-homem,
Desses difíceis momentos já não se lembra.
Protesta e sonha alcançar alto posto,
Como todo jovem sonha
E, naturalmente, reclama,
Acredita em melhores dias,
Porém, para os estudos,
Tinha que ser mais disposto.
Um dia,
Meu amado filho,
Entenderá melhor os desígnios da vida.
Que o real é diferente do sonho,
Mas que Deus sempre guie seus passos,
Para longe das tentações do demônio.
Ali naquela foto,
Hoje Os admiro com saudades.
À esquerda, meu Pai,
Encarnando o trabalho,
Homem de cultura e inteligência inatos.
À direita, minha mãe,
A própria calma (em corpo e alma)
E a paciência dos sensatos.
Além de seu amor,
Pairando bem acima dos desígnios da vida
E de seus percalços.
Meu Pai,
Homem de competência incontestável.
Minha Mãe,
De dignidade inabalável.
Com Ele me sentia seguro, de fato,
Até para entrar na água turva e funda do rio,
Ou lá na praia,
Pra enfrentar as ondas “enormes” do mar,
Naqueles passeios por Ele tão bem planejados,
Na Catarina, nas coroas do Parnaíba ou na Atalaia.
Com Ela, à noite,
Já mais calma dos sustos que, via de regra, lhe pregava,
Repetia sonolentamente a reza que me ensinava,
– “Ave Mãe Lia cheia de graças...”
– “Ave Maria” – corrigia, fingindo zangada.
Ela, coitada, ainda tinha que cuidar da minha “ressaca”,
Dos excessos do sol ou do sal,
Dos enjôos e da pele queimada,
E do cansaço que só à noite chegava.
Sim, sinto suas faltas...
Por que a gente não valoriza, como deveria,
Os melhores momentos de nossas vidas,
Aqueles que passamos juntos e sob a proteção de nossos Pais?
Da varanda do meu apartamento observo
O trabalho do pedreiro velho.
Assentando tijolos,
Uma peça de cada vez,
Edifica o muro que substituirá aquela cerca já decrépita.
Une os blocos pelo cimento que ele, o pedreiro,
Modela com a colher,
Precisando o encaixe perfeito,
Obedecendo porém aos caprichos da estética.
Linha sobre linha sem perder o prumo e a noção do reto,
Forma a trama que segura o conjunto,
Preenche desta forma os espaços
Compreendidos entre as futuras colunas de massa e ferro.
Sobre o andaime que sobe com ele
Uma hora meio que agachado,
Outra hora quase que totalmente ereto,
Acompanhado pelo colega adjunto,
Um trabalhador mais jovem,
Que coloca mais materiais ali perto.
Sua gandola azul,
Apesar do dia nublado,
Já cola em suas costas suadas.
E o capacete amarelo
Esconde parte da cabeleira grisalha,
Daquele profissional de mãos já tão calejadas,
Mas que traduz sua experiência de mestre
E confere qualidade ao produto solicitado.
E o muro avança,
E o muro sobe.
Mais alguns dias e tapará a vista do mato pra quem passa na rua.
Mas pra mim, não
Pois fito a paisagem um pouco mais do alto
E aprovo peremptoriamente aquela novidade.
Afinal, o trabalho do pedreiro velho e de seus colegas,
Vai livrar o terreno baldio do lixo
Ali amiúde jogado pelos insensatos.
Chegou o fim da semana.
A obra tem que esperar
O merecido descanso,
Daqueles que por força da lida
Pegam diariamente no pesado.
Tem horas que fico ali
Pensando, sentado
E, sem querer
Avaliando um fato
Olhando os semblantes pesados
Gestos e jeitos
Incertos, incomodados
Daqueles sujeitos aparentemente amedrontados
Respondendo (ou tentando)
Uma prova de Matemática
Mas podia ser de Geografia
História, Ciências, Gramática...
O que vejo, no caso
É o retrato de uma “pobreza”
Dela mesma (em sentido lato)
Dizendo presente em sala de aula
A cara dos desprezados
A agonia dos saberes-ignorados
Dos sem futuro, desafortunados
Das dignidades-negadas
São subprodutos da negligência
E da incompetência do Estado
Periferia da sociedade
Tratados como “plebe, rude, ignara”.
Não têm nada a perder
Nem tão pouco a ganhar
Submetidos a educadores insensíveis
Desmotivados ou incapazes
(ô serviço que deixa a desejar!).
Cidadãos de que classe?
Vítimas de um projeto caótico
Mal-concebido
Falido, falhado
Que ainda os promove
Sem mérito ou legitimidade
Avaliados pela metade
Passivos ou indiferentes
Revoltados ou carentes
Outros rebeldes
Por justa causa
E eu ali, parado
Impotente (ou demente?)
De frente e pertencente
A esse sistema inoperante
Alienante, errante, errado
Avaliando sem ser avaliado
Observo-os indignado...
Sujeitos indefinidos?
Elementos neutros?
Seres inanimados?...
Que valor tem seu lugar?
Que valor tem seu passado?
Quando serão de fato
Produtos notáveis?
Conhecimentos áridos, voláteis
São sistematicamente a eles repassados
Como fossem homens sem predicado
Como fossem pontos fora do gráfico
Não tanto ao campo, é verdade
Nem tanto à cidade
Umas she!
Outros he!
Mas onde vão mesmo usar o verbo “to be”?
O conteúdo escolar tem pouco que ver
Com as suas realidades!
E a nota do teste?
Vai depender das tais competências e habilidades
(dos mestres!).