Tem horas que fico ali
Pensando, sentado
E, sem querer
Avaliando um fato
Olhando os semblantes pesados,
Gestos e jeitos
Incertos, incomodados
De alunos amedrontados
Respondendo (ou tentando!)
Uma prova de Matemática.
Mas podia ser de Geografia,
História, Ciências ou Gramática...
O que vejo, no caso,
É o retrato de uma “pobreza”,
Dela mesma (em sentido lato)
Dizendo presente em sala de aula.
A cara dos desprezados,
A agonia dos saberes ignorados,
Dos sem futuro, desafortunados,
Das dignidades negadas.
São subprodutos da negligência
E da incompetência do Estado.
−A periferia da sociedade.
Tratados como “plebe, rude, ignara”
Não têm nada a perder
Nem tão pouco a ganhar...
Submetidos a educadores insensíveis,
Desmotivados ou incapazes
(ô serviço que deixa a desejar!)
Cidadãos de que classe?
Vítimas de um projeto caótico,
Mal-concebido,
Falido, falhado
Que ainda os promove
Sem mérito ou legitimidade.
−Avaliados pela metade.
Passivos ou indiferentes,
Revoltados ou carentes,
Outros rebeldes
Por justa causa.
E eu ali, parado...
Impotente (ou demente?),
De frente e pertencente
A esse sistema inoperante,
Alienante, errante, errado.
−Avaliando sem ser avaliado.
Observo-os indignado...
Sujeitos indefinidos?
Elementos neutros?
Seres inanimados?
Que valor tem seu presente?
Que valor tem seu passado?
Quando serão de fato
Produtos notáveis?
Conhecimentos áridos, voláteis
São sistematicamente a eles repassados.
Como se fossem homens sem predicado.
Como se fossem pontos fora do gráfico.
Nem tanto ao campo, é verdade;
Nem tão pouco à cidade.
Umas “she”!,
Outros “He”!,
Mas onde vão mesmo usar o verbo “to be”?
O conteúdo escolar tem pouco que ver
Com suas realidades!
E a nota do teste?
Vai depender das tais competências e habilidades
(dos mestres!)